As Neurociências na Psicoterapia

É indispensável levarmos em conta como as neurociências auxiliam a psicoterapia clínica para pensarmos a dinâmica dos nossos pacientes.
Neurociências na vida cotidiana

É indispensável levarmos em conta como as neurociências auxiliam a psicoterapia clínica para pensarmos a dinâmica dos nossos pacientes.

Estevan de Negreiros Ketzer

Psicólogo Clínico (PUCRS). Pós-doutor em Ciências da Religião pelo Labô – Laboratório de Política, Comportamento e Mídia / Fundação São Paulo/PUC-SP.

Este artigo trata dos achados oriundos das recentes pesquisas em neurociências e como seus achados podem ser relevantes para a efetividade da psicoterapia. Levamos em consideração a integração da afetividade em neurociência como uma ferramenta na qual podemos acessar nossos pacientes. Isso significa acessar a vivência do material que é por eles produzido de forma empática. Esse artigo é um resumo do trabalho realizado anteriormente (Ketzer, 2019) com pequenas modificações devido a facilitarem a leitura.

1. As pesquisas em neurociências clínicas

O pesquisador Louis Cozolino evidencia a importância dos relacionamentos como forma de desenvolvimento afetivo profundo, “consciente ou inconscientemente” (Cozolino, 2006, p. 12). Por técnica, compreendemos uma ação particular do analista em busca dos sinais emitidos pelo analisando acerca de si mesmo. O uso da técnica das neurociências precisa estar atrelado à ética das relações e do cuidado, não pode estar desatrelado, caso contrário há um malefício na relação e, portanto, na ideia de que nossas intervenções advêm de verdades preestabelecidas, mais fortes na vaidade do saber que na dúvida diante de um outro desconhecido, o qual precisaremos nos esforçar para estar perto. Se pudermos entender como o cérebro faz contatos com o meio, podemos entender também e participar mais ativamente de uma relação terapêutica genuína e ética com nossos pacientes.

Esta abordagem será desenvolvida mais detidamente nas partes seguintes, quando notaremos o quanto a memória de si é instaurada na personalidade em funções neurais ligadas às neurociências cognitivas, afetivas e sociais (Kandel, 2007; Solms & Kaplan-Solms, 2002; Panksepp, 2005; Cyrulnik, 2006; Northoff, 2012). Lidar com as diferentes nuances sensoriais é de extrema importância para o terapeuta. “A amígdala recebe informações diretas sobre as respostas de medo inconsciente (estado emocional) e informações indiretas sobre o processamento cognitivo do medo (sentimentos) pelas conexões com o córtex cingulado” (Kandel et al., 2014, p. 1289). A amígdala aprende a distinguir sinais que podem ser entendidos como ameaçadores (incondicionados) ou comuns (condicionados). Precisamos ter em mente que alterações de estímulos na amígdala são decorrentes de células com baixas quantidades de proteína CREB[1] responsável pela consolidação de um determinado aprendizado e, portanto, da constituição da memória. Há uma homogeneização das sinapses diante de situações de medo aprendido, mas o aprendizado envolverá persistência. Mudar um hábito não é algo simples e dependerá de mudanças nas sinapses no corpo estriado, uma região do cérebro afetada pela Doença de Alzheimer, por exemplo.

Neurociências laboratoriais a partir do trabalho de Eric Kandel (2014)
Fig. 1 – Sinapses simples   Fig. 2 – Sensibilização de longa duração

Este momento de destruição celular é tão importante quanto a reconstrução, existindo em decorrência de processos de secreção de “catecolaminas neurotransmissoras e cortisol provenientes das glândulas suprarrenais” (Cyrulnik, 2006, p. 93). O médico francês reconhece os efeitos danosos do cortisol, pois ele é capaz de explodir as células corticais, causando um profundo edema após muitos anos de danos persistentes, isto é, estímulos negativos sobre o humor, uma existência empobrecida com o tempo e a falta de novos estímulos. É a atrofia geral do sistema a qual as neurociências demonstram em laboratório.

No caso de doentes envolvidos que passaram por grandes violências psíquicas, por exemplo, acabam possuindo uma mudança na atitude de como enxergamos o psiquismo do doente: “A estimulação sadia de um cérebro deve, portanto, evitar a segurança total que entorpece a vida emocional, bem como o excesso de estresse que, ao atrofiar os circuitos da emoção e da memória, paralisa também a vida psíquica.” (Cyrulnik, 2006, p. 93) Este fato fala acerca do paradoxo da identificação de nosso córtex pré-frontal. A constância de estímulos ao manterem a energia em um nível sempre adequado, suportável, em que não há esforço, é a grande causa de problemas em pacientes com estruturas psíquicas muito frágeis, com dificuldades em formarem vínculos afetivos. Há a forte incidência de pacientes abusados na infância associados à liberação do hormônio adrenocorticotrófico (ACTH), responsável pela hiperatividade da amígdala (Barbosa et al., 2014), em situações de ansiedade e acusações em pacientes que receberam o diagnóstico de transtorno borderline (Gabbard, 2006).         

2. As neurociências em casos de traumas psíquicos

A violência traumática sofrida gera uma dificuldade da fala e, consequentemente, elementos díspares acerca de uma narrativa identitária sobre si. Boris Cyrulnik compreende que este ponto é crucial para aquilo que não fala poder tomar lugar, uma vez que “sem emoções íntimas e sem balizas externas, familiares ou sociais, a memória fica vazia.” (Cyrulnik, 2009, p. 43). A memória só pode ser preenchida quando é possível sair da indiferença e ir para um enfrentamento íntimo com o outro, pois há “o complexo amigdaloide, centro de triagem neurológica das emoções, que facilita a memória das imagens e das palavras.” (Cyrulnik, 2009, p. 43). Por este motivo, o pesquisador francês não crê que a memória seja um mero retorno ao passado, mas sim uma reconstrução de marcas que sempre são afirmativas, portanto, buscam dar conta do sentimento de felicidade ou de infelicidade.

O trabalho de Cozolino (2006) aponta para algumas intervenções clínicas desse cérebro relacional que têm chamado a atenção de pesquisadores ao redor do mundo. Como propor uma relação se há tanta desconfiança de que elas possam dar certo? Se justamente estabelecer uma relação profunda é algo no mínimo problemático em termos de reação da pessoa diante de si mesma? Estar com o outro é, no caso desses pacientes, muito problemático, pois a pessoa sente como se nunca fosse dar certo se relacionar.

Neste sentido, nosso horizonte se abre para uma especificidade clínica, a qual, por vezes, é um desafio: como lidar com uma dor que impede o reconhecimento de si, enquanto dor, por julgá-la insuportável? Neste sentido, acrescentamos que um cérebro também se constrói onde justamente há a expansão do hipocampo e, com ele, “a organização espacial, sequencial e na aprendizagem e memória emocionais. (…) Em contraste com a amígdala, o hipocampo tem maturação tardia, continuando seu desenvolvimento até a idade adulta (…)” (Cozolino, 2006, p. 57) Por esta razão, o adulto não se recorda dos eventos mais antigos de sua infância – o recalcamento –, pois o hipocampo ainda não está maduro. Levamos esta função em consideração uma vez que ela se desenvolve em uma zona específica do desenvolvimento emocional, sendo posterior ao desenvolvimento da amígdala (área subcortical), relacionada às mais primitivas respostas ao meio como a resposta de luta e fuga e a memória emocional. Sem dúvida, o desenvolvimento saudável está relacionado à estimulação do córtex pré-frontal (área cortical), onde há o surgimento dos neurônios espelhos, responsáveis pela exteriorização das emoções, isto significa, tomar uma decisão emocional. Sendo assim, uma reação da amígdala é levada até o pré-frontal, que pode ou não ser inibida. Esta decisão inibitória é justamente o resultado do que realizamos com nossas emoções: se teremos condições de sermos inteiros com elas ou se iremos abandonar inconscientemente partes desintegradas.

Estudos de neurociências do MIT analisaram neurônios piramidais de diversas espécies de mamíferos, incluindo, da esquerda para a direita, furão, cobaia, coelho, sagui, macaco e humano.

Gostaríamos de comentar brevemente uma intervenção de Louis Cozolino (2006) acerca de um paciente que ele atendeu em psicoterapia: o caso Charlie. Este paciente vinha de uma família formada por um pai violento e uma mãe alcoolista, o que o fez fugir e dedicar-se à música, sonhando em formar uma banda de rock de sucesso. Ele de fato construiu esta banda, recebendo um contrato com uma gravadora. Charlie refere que seus pais se comunicavam sempre batendo, gritando ou jogando coisas. Esse contato intenso com eles o deixou com um comportamento muito parecido, com a diferença de que, quando ele se sentia ameaçado, ao invés de bater e quebrar tudo à sua volta, ele simplesmente fugia. Charlie também referiu que a pessoa que ele mais gostou de conhecer na sua vida foi o Sr. Sorrento, seu professor de música na escola. O terapeuta se percebe deste fato e reconhece em seu solilóquio ao “desenvolver o tipo de relação atenciosa e apoiadora que ele tinha formado com o Sr. Sorrento dez anos antes. Meu papel como professor seria ajudar Charlie a entender como seu cérebro tinha sido moldado por suas experiências precoces – e como ele poderia ser remoldado no presente.” (Cozolino, 2006, p. 94). Neste sentido, Charlie começou a deixar as impressões sobre seu passado mais recorrentes, reconhecendo o quanto sua mãe não possuía a maternidade, expressão de afetos cuidadores do filho, e que seu nascimento deve ter ocorrido por acidente. A preocupação do terapeuta neste momento era ajudar Charlie a relaxar consigo mesmo, envolvendo também a família de Charlie, no caso aqui referido por ele, os colegas da banda de rock. “Quando seus colegas de banda viam Charlie aborrecido com alguma coisa, eles começavam a gritar ‘compartilhe amor, compartilhe amor’ e se agrupavam em torno dele, brincando, rindo e prendendo-o ao chão.” (Cozolino, 2006, p. 95)

Este entendimento também tem revelado uma mudança de rumos da técnica psicanalítica que, como Solms & Kaplan-Solms (2005) reparam, o uso do método clínico proposto por Freud, fazendo amplo uso da transferência e da associação livre, a partir de um estudo de 14 anos, com 35 casos encaminhados para eles por neurologistas. Eles tiveram de fazer, algumas alterações no método freudiano para sessões com menos de 4 a 5 encontros semanais, mantendo o período de 50 minutos, mas com apenas alguns meses de tratamento. Em pacientes com afasias, perceberam que existem representações mentais diferentes para cada uma das modalidades fundamentais da linguagem: visual, auditiva, cenestésica e motora. “O aspecto motor da palavra, então, e, portanto, o componente motor do aparato da fala – área de Broca – repousa na periferia sensório-motora do ego. É pouco mais do que um canal de saída para os complexos trabalhos do ego; seu papel, para o pensamento verbal, é superficial.” (Solms & Kaplan-Solms, 2005, p. 118). Isto significa que a palavra é complexa demais, possuidora de um aspecto performativo que escapa a uma mera atribuição de significados.

É indispensável levarmos em conta as posições atuais da plasticidade cerebral pelo estímulo ao novo e aos diferentes processos de metacognição como alternativa de enfrentamento a traumas severos na identidade de muitos pacientes. Estes fatores contribuem para podermos enxergar o cérebro possuidor dentro de um modelo epigenético (Schore, 2016), focado no contato interpessoal e transformador da experiência humana, distanciando-se assim do behaviorismo social dos primeiros olhares acerca da caixa preta cerebral, quando o cérebro foi comparado a um computador.

Portanto, uma importante contribuição passa a ser a profundidade nas relações humanas no contato com a alteridade a partir de nossas emoções. Como vimos no decorrer da discussão, o assunto ganha diferentes campos de estudo quando nos aproximamos de maneira microscópica, provocando novos experimentos emocionais, tal como podemos observar diante de uma obra de arte ou mesmo discutindo a sensibilidade de nossos pacientes. Estas intervenções precisam, pelas razões aqui apresentadas, provocar uma mudança de atitude também em nossos olhares enquanto psicanalistas, psicoterapeutas e pesquisadores sobre as relações que estabelecemos tanto com a realidade quanto com nossa imaginação, para poderem ser compartilhadas integralmente (Ogden, 2010). É a partir desse questionamento que podemos também prospectar a realidade que queremos inventar para o nosso futuro e aprender com as neurociências como melhorar nossas vidas.

Referências:

Barbosa, I. G.; Oliveira, G.; Fabregas, B. C.; Teixeira, A. L. (Orgs.). (2014) Psicossomática: Psiquiatria e suas Conexões. Rio de Janeiro: Editora Rubio.

Cozolino, L. (2006) The Neuroscience of the Human Relationship: attachment and the developing social brain. New York: W.W. Norton & Company.

Cyrulnik, B. (2006) Falar de amor à beira do abismo. São Paulo: Martins Fontes. (Trabalho original publicado em 2004)

Cyrulnik, B. (2009) De corpo e alma: a conquista do bem-estar. São Paulo: Martins Fontes. (Trabalho original publicado em 2006)

Gabbard, G. O. (2006) Psiquiatria Psicodinâmica na prática clínica. (4ª ed.). Porto Alegre: Artes Médicas.

Garcia-Roza, L. A. (2008) Introdução à metapsicologia freudiana: sobre as afasias, o Projeto de 1895. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, Vol. 1.

Glezer, Isaias et al. (2000) O fator de transcrição NF-kapaB nos mecanismos moleculares de ação de psicofármacos.Rev. Bras. Psiquiatr., São Paulo, Vol. 22, n. 1, p. 26-30. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-44462000000100008&lng=en&nrm=iso. Acesso em:  17 July 2018. 

Kandel, E. C. (2007) In search of Memory: the emergence of a new science of mind. New York: W. W. Norton & Company.

Kandel, E. (2014) Princípios de Neurociências. Porto Alegre: AMGH Editora.

Ketzer, E. N. (2019) Algumas contribuições da neuropsicanálise em casos de traumas psíquicos. Diaphora – Revista da Sociedade de Psicologia do Rio Grande do Sul, v. 19, p. 09-16. Disponível em: https://www.sprgs.org.br/diaphora/ojs/index.php/diaphora/article/view/166/164. Acesso: 23 fev. 2026.

Northoff, G. (2012) Psychoanalysis and the brain – why did Freud abandon neuroscience? Frontiers in Psychology, Vol. 3, p. 1-11.

Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3317371/pdf/fpsyg-03-00071.pdf. Acesso em: 10 jun. 2018.

Ogden, T. (2010) Esta arte da psicanálise: sonhando sonhos não sonhados e gritos interrompidos. Tradução de Daniel Bueno. Porto Alegre: Artmed.

Panksepp, J. (2005) Affective Neuroscience: the foundations of human and animal emotions. New York: Oxford University Press.

Schore, A. (2016) Affect Regulation and the Origin of the Self: The neurobiology of Emotional Development. New York: Routledge.

Solms, M. & Kaplan-Solms, K. (2005) Estudos clínicos em neuropsicanálise: introdução a uma neuropsicologia profunda. Tradução de Beatriz Tchermin Zimerman. São Paulo: Lemos editorial.


[1] CREB (cAMP response element-binding) traduzida por “elementos de resposta a AMPc”, é mais conhecida pela sua função de transcrição nas moléculas de DNA. Está ligada ao crescimento do sistema nervoso e, realizando a transcrição em genes C-Fos, a neurotrofina BDNF (Brain-derived neurotrophic factor), tirosina hidroxilasa, e neuropeptídeos, tais como a somatostatinaencefalina (fator de crescimento nervoso), e ao Hormônio de Liberação de corticotropina, o CRH (Corticotropin-Releasing Hormone). “A via de ativação do AMPc é regulada pelos sistemas serotonérgico, noradrenérgico e dopaminérgico, o que sugere que essa via esteja implicada na mediação das ações de antidepressivos, psicoestimulantes e neurolépticos.” (Glezer et al., 2000, p. 27)