
A psicoterapia mora entre a técnica científica e a sensibilidade do artista. Levar isso para o paciente é algo muito especial na vida.
Estevan de Negreiros Ketzer
Psicólogo Clínico (PUCRS).
Toda o conhecimento de longa construção acaba sendo recolhendo muitas contribuições de diferentes áreas. Elas se alojam e causam uma transformação única em seus processos internos. A psicoterapia recebe muitas influências, as quais não vem apenas da observação da vida das pessoas, mas também de muito estudo e de uma sensibilidade particular.
Esse breve texto traz o contexto da psicoterapia na forma ampliada na qual ela veio ao mundo. Veio a partir de reflexões filosóficas profundas, cuja relação de causa e efeito são de suma importância para uma psicoterapia caminhar com autonomia. Isso significa também dar autonomia, dar a oportunidade para pensar e ser quem a pessoa é. Essa discussão irá nos interpelar ao longo do texto, pois a psicoterapia não é uma simples escolha, mas uma escolha que pode nos beneficiar para toda a nossa vida.
Gostaria de trazer de maneira muito simples a relação da psicoterapia com o nosso mundo. Como nós vivemos o mundo e como a psicoterapia se faz necessária em tempos de muita velocidade em meio aos avanços tecnológicos. Isso irá nos trazer cada vez mais para perto de um campo onde os benefícios da psicoterapia podem ser utilizados pela maior gama de pessoas.
- Psicoterapia como ciência
Apesar de nos parecer muito corrente a psicologia ter vindo de um campo científico, é de fundamental importância observar a psicoterapia como uma técnica. O que faz uma técnica ser adequada? Ela deve ser muito adequada diante das informações que adquirimos sobre o paciente. Portanto uma pergunta bem realizada não apenas nos poupa tempo, mas ela representa também uma reflexão muito elaborada sobre a situação vivenciada ou imaginada de um paciente.
Portanto, diante de uma pergunta examinamos muitos elementos presentes na resposta.
O paciente poderá expressar outros tipos de afeto, como tristeza, raiva, culpa, vergonha, orgulho ou alegria. O entrevistador deverá perguntar sobre o que ele sente e o que acha que provocou o sentimento (MACKINNON, 2008, p. 26).
Justamente vemos aqui a busca de uma relação saudável entre paciente e psicoterapeuta. Vamos ter de lidar em como o paciente vai lidar com a pergunta. Isso exige uma leitura de corpo também, não apenas a resposta em si. As palavras são de alguma forma levadas por circunstância sonoras e físicas, outros contextos que precisam ser lidos pelos terapeutas.
Alguns pacientes expõem completamente suas respostas emocionais, e outros escondem-nas até de si próprios. Embora suas opiniões sejam importantes, suas respostas emocionais são a chave para a interpretação da entrevista (MACKINNON, 2008, p. 26).
A compreensão dos fenômenos mentais se relaciona tanto em um campo cognitivo, quanto emocional e social. Entendemos uma patologia por ser um tipo de dificuldade mental muito profunda a ponto de impedir a vida da pessoa. Um sofrimento é tão incrustrado na vida que se naturaliza. A pessoa não consegue ver outra possibilidade, cria assim um ponto cego para si mesmo, o qual na maioria das vezes ela esconde dos outros por achar algo feio ou inadequado. Também é possível ver pacientes traumatizados que não conseguem elaborar os a cena que os causo disrupção em suas vidas (SCHORE, 2012). Esses elementos geram um tipo de dependência em estados mentais. O psicoterapeuta John Bowlby (2024) classificou 3 tipos de apegos:
- Apego Seguro: A criança explora o ambiente com a ajuda do olhar do cuidador. Consegue controlar sua angústia quando ele sai e se equilibra quando ele retorna.
- Apego Evitativo: A criança se protege sem olhar diretamente para os problemas que a cerca. Sua origem está na frieza com a qual foi tratada.
- Apego ambivalente: A criança busca contato, mas se angústia quando precisa dele e não o tem.
Essas são algumas formas de exame clínico mais científico. Eles dão conta do desenvolvimento, da patologia e da técnica de exame do psicoterapeuta clínico. Entre as muitas abordagens que possuem validade pelo Conselho Federal de Psicologia, consideramos com demasiada importância e atenção a abordagem da terapia do esquema criada por Jeffrey Young (2008), pois ela integra as abordagens da psicanálise, neurociência, teoria do apego, terapia cognitivo-comportamental e psicodrama. Sua base nos ajuda a pensar de forma mais técnica as aplicações da psicoterapia de forma a aumentar nossa assertividade.
- Psicoterapia como arte
Talvez seja na sensibilidade que uma psicoterapia possa ser mais assertiva em seus amplos benefícios. Do que adiante o conhecimento se na hora de sua aplicação não se sente o paciente como um ser humano completo? O problema do excesso de técnica pode ser decupar em excesso o que é transmitido na sessão. O paciente acaba por se sentir menos do que ele de fato é e isso se torna um problema quando observado excessivamente.
Aqui há uma outra exigência pouco falada na formação dos terapeutas, uma parte que diz respeito a como o terapeuta se mostra em sua humanidade e empatia. Ele deve escutar música, ir a exposições de artes visuais, assistir filmes, ler livros de literatura clássica, História antiga, medieval, moderna e conhecer o pensamento filosófico. Esses estímulos devem ser feitos não de maneira esporádica, mas de modo ostensivo. O psicoterapeuta deve criar um ambiente criativo, cuja saída de fórmulas simplificadas entregues pelas instituições seja muito privilegiada durante sua trajetória. É tão importante conhecer a música de Mozart quanto as pinturas de Van Gogh, os filmes de Akira Kurosawa ou o pensamento de Aristóteles. A bem da verdade essa fluência é uma base da qual ele poderá também projetar um pouco da sua própria imaginação.
Essa parte acerca da arte também diz respeito a como lidar com a terapia como uma arte. Isso significa que o terapeuta deve aprender a abordar um tema difícil com o paciente de um modo que haja algum tipo de comunicação entre os dois. Isso é algo que exige realmente muito tempo. O tempo na verdade é um dos grandes aliados intangíveis do psicoterapeuta. Ele aprende que antes de dizer alguma coisa realmente espontânea ele se permitiu aprender. E como sabemos aprender demora tempo. Um aprendizado desse tipo demora pelo menos uns 8 anos, pois aí se começam a ver formas de sentir o ser humano realmente distintas das nossas. Como realmente sentir o que o outro me trouxe? Isso de fato é possível? Um ambiente que tenha carinho e verdade é repleto de possibilidades. O ser humano se sente à vontade de entrar no seu próprio tempo.
Uma das ideias de maior alcance é a proposta para que vejamos as relações humanas íntimas e a psicoterapia num micronível feito de momentos que ocupam um agora subjetivo – o que chamamos de momentos presentes (STERN, 2007, p. 159).
Stern está interessado em um tempo simultâneo. Como o outro e eu sentimos algo juntos se não estivermos realmente conectados? Deve haver algo que dissipe o entre e nos aproxime, mesmo que por uma hipótese inicial. Por isso a parte criativa pode ser uma entrada para falarmos com mais tranquilidade sobre emoções e pensamentos.
Lembro que conversava com um paciente sobre o que ele achava da arte. Ele é um artista digital e isso faz muita diferença. “As músicas sempre me acrescentam muito”, disse ele. Eu falei algo sobre o impacto que foi para mim o Live at Pompeii do Pink Floyd. Ele me perguntou o que eu senti. Eu disse que foi algo muito profundo, parecia algo muito grandioso, como se estivesse ali, junto a cidade de Pompeia, escutando a música Echos, compondo o tempo. “Senti isso quando estive na Catedral de Strasbourg, fiquei sem ar por um instante. Ele me disse, muito satisfeito: “Essas coisas eu só consigo conversar com você”.
A literatura da psicoterapia não suporta uma conversa assim. Ela é espontânea verdadeira. Não se relaciona apenas a patologia, pois vai muito além, busca o excelso, aquilo que transcende o nosso entendimento das coisas. Mesmo eu não me comunicando com exatidão foi a sensação de escutar uma música em um ambiente de ruínas antigas, algo ali vinha de uma sensibilidade. Isso só era possível porque o estímulo a sentir foi possível entre nós.

Considerações Finais
A importância da psicoterapia reside em sermos tanto técnicos como humanos. Como fazer isso? O psicoterapeuta olha para si com um olhar de conexão profunda com seus pacientes. Há um interesse genuíno que converte os dois na busca pela verdade. Essa demonstração reside em um amplo desenvolvimento do ser humano. Esse desenvolvimento está relacionado a uma disposição ao crescimento, a qual para alguns pode ser sentida como interrompida ou desnecessária, mas para outros é um evento iminente.
Como tornar acessível o que é difícil? Isso exige que a escuta do terapeuta seja sensível o bastante para se aproximar sem machucar. Da mesma forma, os conhecimentos não poder ser aplicados irrestritamente, pois precisam ser contextualizados e atualizados na relação terapêutica. Portanto, o ato de conhecer e estar sensível ao encontro são complementares e necessários para uma boa psicoterapia, cujo resultado seja vivenciado na prática. Caso isso não aconteça, o terapeuta pode estar indo na direção errada e, potencialmente, causar um dano na vida do paciente. Por essa razão a importância é grande nos dois elementos acima descritos.
Por fim, acredito que a formação do psicoterapeuta é algo complexo que exige sempre muito de si. Eu me exijo na proporção do que almejo de melhor aos meus pacientes. Isso não é contemplado por nenhuma formação em terapia formal. Pelo contrário, pode ser que as formações sejam muito omissas à sensibilidade dos terapeutas, isso é, um jeito próprio de se aproximar sem causar um dano. Dos meus 16 anos como terapeuta eu entendo a relevância de conhecer na mesma medida que ser sensível para a minha formação como psicoterapeuta.
Referências:
BOWLBY, John. Uma Base Segura: aplicações clínicas da teoria do apego. Tradução de Marcos Vinícios Martim da Silva. Porto Alegre: Artmed, 2024.
MACKINNON, Roger A. A entrevista psiquiátrica na prática clínica. Tradução de Celeste Inthy. Porto Alegre: Artmed, 2008.
SCHORE, Allan N. The Science and Art of Psychoterapy. New York: W. W. Norton & Company, 2012.
STERN, Daniel. O Momento Presente: na psicoterapia e na vida cotidiana. Tradução de Celimar de oliveira Lima. São Paulo: Record, 2007.
YOUNG, Jeffrey. Terapia do Esquema: guia de técnicas cognitivo-comportamentais inovadoras. Tradução de Roberto Cataldo Costa. Porto Alegre: Artmed, 2008.