
A técnica mais adequada não é simplesmente uma intervenção que estamos acostumados, mas sim uma conversa leve e sutil com finalidade de tornar proveitosa uma situação difícil na vida do paciente.
em Estevan de Negreiros Ketzer
Psicólogo Clínico (CRP: 07/19032)
Introdução à Psicoterapia
A psicoterapia é uma atividade advinda das áreas da saúde. Sua prática deve melhorara a vida dos pacientes de maneira real e efetiva. Os efeitos das intervenções em psicoterapia duram a vida toda, pois seus benefícios passam a ser utilizados pelos pacientes como ferramentas da experiência humana e para as relações humanas. Nesse texto, vamos explorar alguns aspectos da psicoterapia e como ela pode ajudar as pessoas com o conhecimento e com a sensibilidade.
1. Conhecer como parte da avaliação em psicoterapia
Uma avaliação psicológica adequada do paciente deve incluir o paciente nos resultados da avaliação. Isso significa que quando um paciente chega para atendê-lo devemos verificar como uma “conversa”, ao mesmo tempo simples e coloquial, pode nos ajudar a, na primeira sessão, trazer um benefício imediato para o paciente. Por exemplo: “Conforme conversamos hoje eu entendi que há uma dificuldade na forma como você sente as pessoas ao redor. Nosso plano terapêutico deve então servir para aos poucos você se sentir mais próximo dos seus sentimentos de como se conectar com as pessoas”. Esse tipo de fala acolhe e ao mesmo tempo ajuda o paciente a pensar sobre o que foi observado durante a sessão.
2. O que observamos durante a psicoterapia
A psicoterapia estabelece um cuidado com o paciente. Nossa ajuda é imprescindível para o seu desenvolvimento. Por essa razão, devemos ter uma atitude de profundo respeito pela história de vida daquela pessoa. Nossa observação vem pautada por pequenas conversas que podem ser importantes para o paciente aprender a adentrar em assuntos dos quais ele pode não estar acostumado a adentrar. É muito comum o paciente ter elementos da sua história com dificuldades. Isso significa que pode haver em sua vida coisas das quais ele se envergonhe ou se acostume a fazer, ainda que não goste ou não entenda. “Será que isso é algo que se repete e você não percebe?” Essa pergunta deve ser feita de maneira simples, na linguagem do paciente, pois ajuda ele a se sentir escutado e compreendido na sua dificuldade. A pior coisa que pode acontecer é o paciente sair de uma sessão de psicoterapia e se sentir culpado e incompreendido. Essa sensação de incompreensão é muitas vezes interpretada como algo que o paciente se sinta assustado e recrudesce sua investigação sobre suas dificuldades. Portanto, devemos aprender, com o tempo, a ter sensibilidade e muita sutileza em nossas intervenções. A técnica mais adequada não é simplesmente uma intervenção que estamos acostumados, mas sim uma conversa leve e sutil com finalidade de tornar proveitosa uma situação difícil na vida do paciente.
3. Relações entre a saúde e doença na psicoterapia
Apesar da psicoterapia ser muito marcada pela doença e sua resolução, as conexões mais importantes com o paciente são construídas por laços de confiança, cuja origem advém da capacidade de se obter saúde. Na grande maioria das vezes o psicoterapeuta está tentando trazer saúde junto ao seu paciente. Ele o faz como uma conversa tranquila. Sua voz precisa modular uma frequência solene, calma, cuja importância referente ao assunto seja diferente de outras conversas coloquiais. Isso não pode ser feito de maneira mecânica, mas em decorrência de como o paciente está nos passando seus estados mentais. O paciente pode não perceber sua modulação de humor e melhor do que dizer formalmente com palavras é mostrar com apoio de nossos próprios sentimentos. O psicoterapeuta constrói um apoio firme em relação aos laços emocionais do paciente por perceber a intensidade que é depositada em cada situação. Esse elemento traz algo muito mais importante do que apenas a resolução entre saúde e doença, mas refere o quanto uma relação entre terapeuta e paciente tem de ser “afinada”, isto é, partindo de uma regulação emocional adequada ao nível do paciente. A regulação emocional é feita como exercício entre os dois, o que leva um certo tempo, mas também deve servir de estofo para que ambos possam estar disponíveis a aprender.
4. Psicoterapia como exercício
A noção de exercício terapêutico, com periodicidade nas sessões, horário marcado por ambos, constância, e um tema a ser debatido, esbarra na noção de exercício como desenvolvimento pessoal. O paciente pode não perceber, mas esse ambiente adequado é de extrema relevância para a criação de um espaço de crescimento pessoal. O psicoterapeuta aprende sobre o paciente enquanto o paciente se dispõe a falar, fazendo uso de sua capacidade de recriar palavras e envolvê-las com sentimentos sobre si mesmo. Ele representa algo de si que traz uma consciência de que ali ele está sendo ele mesmo, explorando algo que pode ser difícil ou mesmo incomum em sua existência. Para quem mais ele falar isso? Por vezes os pacientes se sentem muito sozinhos, repletos de medos de que a solidão seja algo incomum. Essa sensação de ser estranho, inclusive desagradável falar de si, é parte da dificuldade maior de não conhecer a si mesmo. Não apenas não conhecer a si mesmo, ele também não sabe bem do que sente prazer, seja para si ou para as outras pessoas poderem sentir prazer com ele. A capacidade de sentir prazer está relacionada ao relaxamento, algo de extrema importância quando estamos abordando assuntos difíceis com nossos pacientes. O relaxamento só vem quando a ansiedade diminui e isso denota uma sensação de leveza, resultado que o paciente colhe da psicoterapia quando resolve em si o problema que lhe consumia.
5. Características de que a psicoterapia está andando bem
Nesse quesito, nós vamos pegar um ano de trabalho com o paciente para servir de exemplo. Quando após um ano de trabalho observamos ganhos reais na vida do paciente, tais como um emprego melhor, um relacionamento mais sadio ou o restabelecimento de vínculos familiares melhores, temos indicativos palpáveis de que o método colocado no ponto 2 de nosso artigo tem dado resultado. O terapeuta conseguiu com suas colocações uma melhora na qualidade de vida do paciente. Essa forma não é algo simples, mas resultado da investigação do terapeuta e do seu real interesse em aprender com o paciente em como ele é, seus traços de personalidade, e se comporta, como ele mostra esses traços. Esse motivo leva o terapeuta a conduzir a percepção do paciente em busca de uma observação madura, cuja finalidade é sua responsabilidade sobre o que ele cria. Ele se responsabiliza quando se sente parte concreta do conflito, embora sinta que possui a capacidade de resolução. Ele o faz com segurança. Esse é um dos sinais mais evidentes de sua melhora na vida.
Conclusão à Psicoterapia
Esboçamos nesse pequeno texto alguns dos pontos fundamentais para a realização da psicoterapia. Esse processo de grande importância ainda deve ser visto com maior reflexão por parte dos terapeutas. Isso porque os pacientes também desejam conhecer seus terapeutas e ver neles algo que os acalme verdadeiramente. O terapeuta deve ver a psicoterapia como um processo de aprendizagem tanto dele com o seu paciente, quanto do paciente consigo mesmo. Se isso acontecer dessa forma, o processo torna-se agradável a ambos e passa a ser capaz de levar à saúde.
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